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Morre, em São Paulo, alagoano que peitou ditadura e foi um dos maiores repórteres do país

Publicado em 30 de Maio de 2018

por Rodrigo Cavalcante

Na tarde desta quarta-feira (30), morreu em São Paulo, aos 88 anos, de câncer, o jornalista alagoano Audálio Dantas, reconhecido não apenas como autor de algumas das maiores reportagens do país, mas por ter enfrentado a ditadura militar ao assumir a presidência do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, em 1975 - quando denunciou o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto no DOI-CODI, o que contrariava a versão oficial do governo, de suicídio.

Antes desse período, Audálio, alagoano nascido em Tanque D´arca que foi morar com a família em São Paulo, já havia assinado algumas das mais marcantes reportagens da imprensa brasileira em veículos como a Folha da Manhã, do Grupo Folha, em O Cruzeiro, fundada por Assis Chateaubriand, e nas então recém-lançadas Realidade, Veja e Quatro Rodas, da Editora Abril.    

Como repórter, cobriu a chegada da energia elétrica ao Sertão com a inauguração da hidrelétrica de Paulo Afonso. A miséria, maus tratos e mau cheiro do então Hospital Psiquiátrico do Juqueri, verdadeiro campo de concentração. O início de grandes obras como a da barragem que submergiu o povoado de Canudos fundado por Antônio Conselheiro. Acompanhou concursos bizarros de resistência (pré-realities shows) como uma maratona carnavalesca em que foliões tinham que permanecer dançando de sábado a terça-feira de Carnaval. Descreveu o surgimento de novas metrópoles como Belo Horizonte e a revolução de costumes da tradicional família mineira. Narrou o surgimento das primeiras favelas de São Paulo e, em uma delas, descobriu a escritora Carolina de Jesus, cujos diários compilou mais tarde no livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, traduzido em 13 idiomas e publicado em 40 países.

E foi com esse currículo, que lhe rendeu a admiração dos colegas jornalistas, que Audálio assumiu a presidência do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo num dos momentos mais delicados do enfrentamento ao regime militar. Em retrospectiva, é fácil, hoje, constatar que a grande repercussão provocada pela morte de Herzog foi decisiva para a perda de apoio ao governo militar.

Essa repercussão, contudo, não se deu naturalmente.

Foi provocada por meio de decisões arriscadas como a de Audálio e de outros dirigentes do sindicato em lançar um comunicado responsabilizando publicamente os militares pela morte do jornalista e convidando todos para o enterro.

Enterro que, dias depois, culminou na reunião de 8 mil pessoas na Praça da Sé no ato inter-religioso celebrado por Dom Evaristo Arns e pelo rabino Henry Sobel.

A liderança de Audálio logo fez com que o alagoano conquistasse respeito e admiração não apenas dos colegas jornalistas, como de lideranças políticas e artistas da época, como Elis Regina, por exemplo, cuja proximidade fez o alagoano figurar na gravação em que a cantora fez dueto com Adoniran Barbosa (veja vídeo abaixo).

Rendeu também a Audálio a eleição a deputado Federal por São Paulo, em 1978, pelo extinto MDB, e o reconhecimento internacional da ONU, em 1981, com o Prêmio Kenneth David Kaunda de Humanismo.

“A repercussão internacional do episódio (morte do Herzog) acabou por obscurecer uma faceta desse alagoano que levou os brasileiros a darem um basta à tortura e ao ‘desaparecimento’ de presos políticos no Brasil: a do grande repórter”, lembrou um dos fãs dos textos de Audálio, o jornalista e escritor Fernando Morais (autor de Chatô, O Rei do Brasil), no prefácio do livro O Tempo de Reportagem, que reúne algumas dos melhores textos da imprensa  do alagoano.

E quando Audálio decidiu escrever sua visão sobre o caso Herzog no livro As Duas Guerras de Vlado Herzog, o resultado foi nada menos do que o Prêmio Jabuti do melhor livro do ano de não ficção em 2016.

Ano passado, ele foi homenageado na Festa Literária do Pontal,  comandada pelo escritor Carlito Lima, onde emocionou-se ao dar um depoimento sobre sua carreira e receber o reconhecimento de seus conterrâneos de Alagoas, incluindo o de muitos moradores de Tanque Dárca, sua cidade natal. 

Audálio lutava contra um câncer de intestino desde 2015, quando foi operado. A  doença, contudo, teria atingido o fígado e pulmões, o levando a ser internado em abril passado, até a sua morte nesta quarta. Segundo sua família, o corpo será cremado. Ele deixa mulher, filhos e netos. 



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