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Nova biografia de Jorge Amado resgata dia em que escritor veio a Maceió em busca de Graciliano

Publicado em 18 de Dezembro de 2018

Por Rodrigo Cavalcante

Em meados de 1933, um jovem escritor baiano de 21 anos incompletos decidiu viajar de navio do Rio de Janeiro a Alagoas para conhecer um escritor que ainda estava para lançar o primeiro livro.

O escritor baiano, Jorge Amado, decidiu fazer o périplo até Maceió após ler no Rio de Janeiro os originais de Caetés, o primeiro romance de Graciliano Ramos, que viria a ser publicado pela Schmidt editora ainda naquele ano.

A jornada até Maceió, já contada pelo próprio Jorge Amado no livro Navegação de Cabotagem, foi também resgatada pela escritora baiana Josélia Aguiar em Jorge Amado: Uma Biografia, um dos maiores lançamentos do ano pela editora Todavia.

Entre as quase 500 páginas do texto (com mais de 50 delas com citações a Graciliano), Josélia narra como Amado, impressionado e “tomado por espanto” com o texto de Graciliano, decidira embarcar até Penedo (cidade pela qual se apaixonou e voltou várias vezes ao lado da mulher Zelia Gatai) e, de lá, embarcou em um automóvel por mais um dia em estradas esburacadas até Maceió.

Mais do que uma biografia de Amado, o livro resgata também a geração de intelectuais que, ao lado de Graciliano, frequentavam o Bar do Cupertino, ou Bar Central, na Rua do Comércio em Maceió, como Valdemar Cavalcanti, Aurélio Buarque, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, entre outros.

Leia abaixo trecho do livro (páginas 64-65) sobre o primeiro encontro de Amado com o Velho Graça.

“Quando leu o inédito recuperado (de Caetés), Jorge sentiu-se ´tomado de espanto´. Nas primeiras férias, seguiu até Maceió. Da Bahia¹ , embarcou num paquete que, subindo o Rio São Francisco, o deixou em Penedo. Em bonde burro seguiu até onde lhe esperava o automóvel que Valdemar Cavalcanti, o crítico literário e já seu conhecido, enviou para buscá-lo. A viagem durou o dia inteiro, em estrada de barro e buracos até Maceió. Nem todos exigiriam o esforço de comer poeira. As cartas seriam suficientes na maioria das vezes.

No bar Cupertino, também chamado Bar Central, Graciliano era o centro da rodinha de conversa. Uma figura rara. Bebia café preto em xícara grande, portava bengala e chapéu de palhinha, era de poucas palavras e bastante sóbrio de gestos, afora a insólita mania de derramar açúcar no mármore da mesa e incinerá-lo com o cigarro, fazendo subir um cheiro que, para os presentes, recendia a engenho. Achava o modernismo “uma tapeação desonesta”, seus representantes, com raríssimas exceções,“uns cabotinos”, que importavam Marinetti enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver e sentir. Inclinava-se, à sua maneira independente, cada vez mais ao pensamento de esquerda. Os convivas o chamavam “O Velho” pelos vinte anos à frente – afinal Graciliano estava com provectos quarenta anos.

Os literatos se reuniam em torno dessa mesa no Bar Central desde a década de 1920, quando Maceió, provinciana com seus 100 mil habitantes, assistiu a uma série de eventos de renovação artística e cultural, como a Festa da Arte Nova, nos moldes da Semana de Arte Moderna, só que durando apenas um dia. Sem falar na Academia dos Dez Unidos, bem-humorada paródia da Academia Alagoana de Letras – como a baiana Academia dos Rebeldes. Em torno das mesas, não havia apenas alagoanos, também intelectuais de fora: por ali passara Santa Rosa antes de ir para o Rio, depois Rachel de Queiroz, acompanhada do marido, José Auto, e certo fiscal de rendas paraibano, José Lins do Rego, que logo causaria estrondo na roda literária do Rio.

Caetés só chegaria às livrarias pela Schimidt em 1933 – havia pelo menos três anos que estava sendo anunciado. O volume é dedicado a Alberto Passos Guimarães, Jorge Amado e Santa Rosa. Desconfia-se que tal ideia não veio de Graciliano, pois outros livros seus não incluem agradecimentos. Há quem acredite que foram os os próprios homenageados – ou um deles, em nome de todos – que providenciaram tais dizeres. São Bernardo, que Jorge viu na visita a Maceió, sairia pela Ariel um ano depois. O terceiro romance quase se perdeu. Nos idos de 1935, desgostoso com o que vinha escrevendo, Graciliano atirou os originais de Angústia no lixo. Conhecedora de seus acessos de fúria perfeccionista, sua mulher, Heloísa, telefonou para Rachel, que seguiu até a casa do escritor, deu-lhe uns bons esbregues e catou o livro no cesto, entre restos apodrecidos de frutas e legumes.”   

¹ em Navegação de Cabotagem, Amado diz que embarcou no Porto do Rio de Janeiro


 

 

 


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