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Aos 91, Francisco Brennand fala sobre livro de professora da Ufal que “reabriu” seu diário

Publicado em 14 de Fevereiro de 2019

 por Rodrigo Cavalcante

Nem todos os alagoanos sabem, mas a saga da família Brennand, sobrenome do pintor e ceramista Francisco Brennand (e dos irmãos, primos e sobrinhos hoje à frente de grandes indústrias no Estado vizinho), teve início em Alagoas.

Em cinco de fevereiro de 1835, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, registrou o embarque naquela cidade do inglês Edward Brennand com destino ao porto de Jaraguá, onde ele se casaria com a viúva Maria Francisca Monteiro, da cidade de Viçosa e, mais tarde, batizaria o filho, Ricardo Brennand – que, por sua vez, tornou-se um nome de destaque como abolicionista, republicano e homem de negócios à frente da refinaria de bebidas Brennand, na Rua do Comércio, em Maceió.

Mais de cem anos depois de Ricardo mudar-se de Maceió a Recife, foi também daqui de Alagoas que a professora da Ufal, a paraibana Ruth Vasconcelos (na foto ao lado), partiu novamente a Recife para fazer pós-doutorado adotando como tema uma análise do Diário de Francisco Brennand, conjunto de quatro livros publicados pelo artista em 2016.

Após uma série de encontros semanais durante meses com o artista na famosa Oficina Francisco Brennand, o resultado da tese de Ruth se transformou na série de quatro livros “Os Cadernos Verdes de Francisco Brennand. Uma leitura”, publicado pela Editora Viva - que será lançado em Maceió às 19h desta quinta (14), no auditório do Diteal, (anexo do Teatro Deodoro).

E foi da oficina no bairro da Várzea, em Recife, que Brennand falou a AGENDA A sobre o trabalho de pesquisa de Ruth, assim como da trajetória que lhe deu a oportunidade de conviver e conhecer nomes da cultura brasileira como o colega de classe do Marista, Ariano Suassuna, o pintor Cícero Dias e até o médico e poeta alagoano Jorge de Lima.

AGENDA A: Como a obra da Ruth pode ajudar a reinterpretar seus diários?

Francisco Brennand: Lancei meu diário em dezembro de 2016. Tinha convicção de que era uma leitura para poucos. Mas, ainda assim, pensava que a minha narrativa interessasse um número maior de pessoas.  Tenho consciência de que poucos leram. E Ruth, que não é oriunda nem do universo da pintura nem da literatura, mas da sociologia e da psicanálise, foi abrindo e desvendando página por página, realizando pacientemente um trabalho durante vários dias de conversas que duraram horas. Fiquei comovido com esse esforço para abrir janelas e decifrar temas e autores que fazem parte do meu universo. Assim como minha mãe usava uma espátula de marfim para ler seus livros preferidos, a maioria de edições francesas que chegavam na época com as páginas impressas ainda coladas, acho que o trabalho Ruth, para usar essa metáfora, foi uma espécie de espátula dos meus diários. Jorge Luis Borges dizia que o leitor é o autor duplicado. Lendo, relendo e reescrevendo com sua leitura crítica, sinto que o trabalho de Ruth pode vir a inaugurar, de fato, a leitura dos meus diários.

O fato dela não ser uma pesquisadora da arte ou de estética acabou sendo positivo?

Sim, acredito que isso permitiu um olhar mais livre, como o de um artista que pinta, pacientemente uma natureza morta pela primeira vez atento a cada elemento. E ela se esforçou para captar esses fragmentos questionando o sentido de cada passagem e cada referência. Quando ela não conhecia um artista ou escritor citado por mim, fazia questão de buscar informações do autor e da obra. Enfim, são olhares externos que muitas vezes lançam novas visões sobre minha obra. Talvez não seja por acaso que a bióloga chilena Cecilia Toro, por exemplo, tenha sido responsável por uma das melhores leituras do meu trabalho ao encontrar semelhanças entre algumas obras e formas primárias e arcaicas de vida.

Formas primárias de vida, sexo, violência, reprodução... Apesar de você ter estudado com Ariano Suassuna ainda no colégio secundário, ter convivido com o pintor Cícero Dias e acompanhado de perto os movimentos regionalistas de Pernambuco de Gilberto Freyre ao Movimento Armorial, sua obra nunca se enquadrou numa linguagem regionalista do Nordeste. Essa ideia de uma estética “regionalista” ou “nordestina” pode ser uma prisão?

Uma vez me perguntaram se minha obra era Armorial ao que respondi que não, que era sexual (risos). Ainda hoje acredito que padeço dessa fatalidade de ser classificado como regionalista sem corresponder a essa expectativa. Alguns dias atrás, por exemplo, uma equipe da Rede Globo veio aqui com vários equipamentos de alta tecnologia para fazer uma transmissão ao vivo de um programa chamado Verão 2019, que me parece que abrange as belas praias do Ceará, do Rio Grande do Norte, Alagoas, enfim, um programa associado ao turismo, ao sol e ao mar e às belezas do Nordeste. E como sou escultor e trabalho com cerâmica no Recife, parte-se naturalmente do corolário de que seria um artista com temáticas associadas a essa ideia específica de Nordeste. Vez ou outra, contudo, minha obra provoca reações que mostram que mesmo os não especialistas conseguem decifrar. Certa vez, uma senhora veio acompanhada de uma sobrinha arquiteta que desceu do carro para comprar cerâmica prometendo à tia que não levaria mais de 15 minutos. Como ela demorou mais tempo, a tia desceu do carro, adentrou nas salas de oficina, viu as esculturas e disse “Valha-me Nossa Senhora, estou em um museu de horrores”, ao se deparar com formas que expressam força da carne viva sangrenta, da sexualidade. Quando conto isso, as pessoas em geral sorriem complacentes como se estivesse narrando o fato como exemplo de preconceito e incompreensão. Na verdade, foi exatamente por entender do riscado da vida enquanto receptáculo de dor, sexo, morte, enfim, da potência e tragédia no sentido grego, que ela reagiu dessa maneira. Ela viu o que muitos que vêm em busca dessa arte regionalista não veem. Mas essa incompreensão é corrente, e não apenas comigo.

Quem mais foi alvo dessa incompreensão?

Você citou o Cícero Dias e Gilberto Freyre (foto à direita), duas personalidades que conheci. Quando Cícero Dias era o pintor dos quadros figurativos oníricos, Gilberto Freyre, por exemplo, era o seu maior entusiasta. Mas quando o Cícero Dias, anos depois, se tornou um dos primeiros pintores abstratos do país, o mesmo Gilberto Freyre, silenciou. Freyre, que era muito inteligente, não falou mal, claro. Mas não compreendeu.

E Ariano Suassuna, compreendia seu trabalho?

Como se sabe, sou amigo de Ariano desde os tempos de colégio Marista, quando me preparava para o curso de Engenharia. Ele falava comigo de pintura de igual, assim como eu podia falar de literatura com ele. Sim, naquele tempo, no Ginásio Pernambucano, onde Suassuna estudara antes, havia uma biblioteca onde alunos interessados como ele tinham acesso a livros sobre arte e outros temas. Mas, sobre meu envolvimento com o movimento Armorial, há um equívoco. Acontece que não só Ariano, como César Leal, Tomás Seixas e eu fazíamos um quarteto que nos reuníamos aos domingos na minha casa e que Ariano chamou de Academia dos Emparedados (na foto à esquerda, Leal, Suassuna, Seixas e Brennand). Esse convívio com Ariano me levou a expor muitas vezes pinturas ao lado de obras do Movimento Armorial. Apesar disso, nunca fui adepto do regionalismo, da arte sertaneja, daqueles elementos de origem que faziam o conceito do movimento Armorial. Acompanhei de perto, mas não carregava elementos ligadas a temas como cangaço, à cavalhada. Estou mais ligado a outras questões existenciais, talvez mais vinculadas à arte europeia. Você me permite uma digressão sobre Ariano? 

Claro...

Em 1993, Ariano escreveu um belo texto para uma exposição minha em Berlim. Escreveu tudo com muita propriedade, acuidade e talento poético. Mas, no texto, Ariano narra uma visita imaginária que ele teria feito a minha Oficina ao lado de um certo judeu alemão chamado Josef David Yaari. Depois de discutir muito sobre a obra de Brennand e de iniciar a visita pelo pátio externo, o judeu se recusa a entrar ao se deparar com as palavras de Joseph Conrad: “The horror, the horror”, argumentando que precisa se defender do fascínio desse horror. Ou seja, Ariano sabia que navegávamos em mares distintos. E ele tinha motivos palpáveis para recusar esse horror na arte, não apenas por seu catolicismo. Ele teve o pai assassinado, seu irmão suicidou-se. Esse é o nó que nos separa. 

Seu pai foi um grande industrial e seu irmão Cornélio e primo Ricardo seguiram a mesma trilha tornando-se grandes empresários de Pernambuco nos mais diversos setores. Você alguma vez se sentiu culpado por não ter seguido o caminho do seu pai, figura que você tanto admirava?

Nem sempre as relações com a família foram fáceis. Meu pai foi um homem que colocava a empresa acima de tudo e eu, como alguém que desertou, nem sempre era visto com bons olhos. Mas, no fundo, acho que meu pai foi, mais do que um pai, um cúmplice. Era um grande leitor, principalmente de Balzac, que lia no original. Era um homem interessado em arte, em porcelana, e não por acaso teve coragem de vender máquinas de usinas para montar, com apenas 20 anos, uma indústria pioneira para produzir a melhor porcelana do Brasil que, anos depois, transformei nisto aqui. E, mesmo quando estava mais velho, fazia questão de compartilhar comigo segredos e decisões das empresas que nem sempre eram compartilhados por outros parentes. Além disso, já em idade avançada, ele me escreveu uma carta se abrindo para mim, dizendo-se maravilhado com meu trabalho, enfim, uma espécie de acerto de contas. De certa forma, o trabalho que realizei nessa fábrica é uma homenagem a ele.

Ruth é paraibana, mas professora da Federal de Alagoas. E foi em Alagoas que o seu ancestral, o inglês Edward Brennand, deu início ao tronco brasileiro da família gerando nomes importantes na história do Estado como o abolicionista e republicano Major Ricardo Brennand. O trabalho de Ruth é uma reconexão com Alagoas?

É interessante essa conexão. Antes de Edward embarcar para Alagoas, sabemos pouco da atividade dele no Brasil. Da minha parte, gosto de preencher essa lacuna imaginando, sem respeitar cronologias exatas, ele partindo no momento em que Napoleão agonizava na Ilha de Santa Helena. De Alagoas, tive também vários amigos, como o médico Matheus Lima, irmão Jorge de Lima. Foi graças à influência do amigo e poeta César Leal que aprendi a admirar ainda mais a poesia de Jorge de Lima, principalmente em sua última fase religiosa visionária, que fez com que César Leal colocasse Jorge no panteão dos gênios da poesia brasileira.

Você chegou a conhecer pessoalmente Jorge de Lima? Quando?

Foi em 1952, aqui em Recife, quando eu havia recém-chegado de Paris e ele veio do Rio visitar o irmão. Veio à minha casa ver minhas obras, até pela amizade que eu tinha com Matheus, médico, que também era poeta de uma cultura vasta, escrevia fluentemente em francês, e foi meu amigo pessoal até o final da vida. De Alagoas, Matheus me contava, por exemplo, lendas sobre a origem da Praia do Francês. Enfim, são esses encontros da vida, assim como o encontro de Ruth, quem sabe, pode ter agora um efeito de reabrir meus diários para um público maior. Não reabrir no sentido de tornar digerível, como uma versão “Reader´s Digest”, mas de lançar uma compreensão maior dos fatos e temas dessa jornada que, tenho consciência, está perto do fim.

Não é o que indica sua memória e lucidez...

Sim, a cabeça pode ainda estar boa, mas não tenho ilusões, já que o corpo nem sempre acompanha e envia outros sinais. De qualquer forma, conversas como essa, assim como o trabalho da Ruth, mostram que podemos ainda acreditar.  

 

Serviço

Lançamento: Os Cadernos Verdes de Francisco Brennand – Uma Leitura, de Ruth Vasconcelos

Data e local: Quinta-feira (14), a partir das 19h, no Complexo Cultural Teatro Deodoro, no Centro de Maceió

 



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