O que diria o Menestrel das Alagoas, verdadeiro mito da democracia do Brasil, sobre estas eleições?

Publicado em 24 de Outubro de 2018

por Rodrigo Cavalcante

Não é culpa sua. É um mecanismo natural do cérebro. O passado é sempre melhor do que o presente.

Recordo do ano de 1983 como um dos melhores da minha vida. Tinha nove anos. Cruzava sozinho as ruas de barro batido de Maceió com minha Monark Monareta. O Flamengo foi campeão brasileiro vencendo o Santos por 3 x 0 com gols de Zico, Adílio e Leandro. O Natal e a festa de Ano Novo na casa do meu avô José Vasconcellos, na Rua Vital Barbosa, foram mais uma vez inesquecíveis.

Para o Brasil, contudo, 1983 foi um ano terrível.

Após tentativa do governo do General Figueiredo de encobrir a crise econômica que se arrastava desde o final do Governo Geisel, o país faliu.

Faliu mesmo, não é figura de linguagem.

Se o Banco Central tem hoje 380 bilhões de dólares de reservas, chegou a ter quase zero naquele período. Teve que pedir arrego ao FMI para não dar o calote.

A inflação disparou. Em setembro, uma onda de tumultos e saques a supermercados varreu o Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais do Brasil. Só no Rio, foram mais de 500 estabelecimentos saqueados.

Para piorar, no dia 27 de novembro, morreu em Maceió Teotônio Vilela, já reconhecido nacionalmente como “Menestrel das Alagoas” por ter percorrido os últimos anos de vida lutando pela redemocratização do país e contra um câncer avançado descoberto em maio de 1982.

Enquanto a ala mais conservadora do PMDB, representada então por Tancredo Neves, queria uma transição conciliada com o Governo Militar, Teotônio já pregava corajosamente por eleições diretas.

Era um liberal com L maiúsculo, daqueles que arriscam a carreira política e os negócios da família por seus ideais.

Em 1979, por exemplo, deu um salto no escuro ao sair da cômoda posição de senador da Arena, partido do Governo, para filiar-se ao MDB.

Visitou presos políticos em todo o Brasil e lutou por anistia integral, defendeu trabalhadores da repressão do Governo Militar no ABC Paulista (chegou a ir escondido no carro do delegado Romeu Tuma visitar um sindicalista chamado Lula na prisão do DOPS) e falava sem medo contra os militares de baixa patente que vinham praticando atos de terrorismo (como as bombas do Rio Centro) para melar o processo de abertura política.

Quando Milton Nascimento e Fernando Brant compuseram em 1982 a música “Menestrel das Alagoas” em homenagem a Teotônio (ouça abaixo versão na voz de Fafá de Belém que virou hino das Diretas Já), ele já era, em vida, um mito na luta pela redemocratização do país.

Morto no ano seguinte, transformou Maceió na capital política do país no dia do seu sepultamento.

Na tarde quente de 28 de novembro de 1983, a família de Teotônio e o então governador Divaldo Suruagy receberam no Parque das Flores Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Franco Montoro, Lula, Antônio Carlos Magalhães, Miguel Arraes, Miro Teixeira entre outras dezenas de políticos nacionais de todas as orientações políticas ideológicas, incluindo nomes até então pouco conhecidos, como o deputado Federal do Mato Grosso Dante de Oliveira, que seria o autor da emenda homônima pelas eleições diretas já no ano seguinte.

Todos dividindo espaço ao lado de milhares de alagoanos apinhados no cemitério após percorrerem oito quilômetros da Assembleia Legislativa, na da Praça Dom Pedro II, à Avenida Fernandes Lima.

Como memória no Brasil é matéria rarefeita (confirmada pelo descaso que causou o incêndio do Museu Nacional), boa parte dos alagoanos, inclusive muitos descendentes de Teotônio, parecem ignorar a luta e os riscos que o menestrel e milhares de brasileiros assumiram para garantir que eles tenham o direito de votar em quem quiserem no próximo domingo -- inclusive no capitão do exército reformado com nostalgia do regime militar que elogiou o torturador Carlos Alberto Ustra.

Difícil saber também como um liberal autêntico como Teotônio reagiria ao projeto hegemônico de poder do PT, aos casos de corrupção e ao culto populista que gerou o Lulismo – ameaçado agora pelo bolsonarismo de extrema-direita.  E, convenhamos: qualquer tentativa de atribuir viés eleitoral em nome de quem já morreu não passa de oportunismo.

Mas há, sim, ao menos uma qualidade de Teotônio que precisará ser invocada por todos os brasileiros nos próximos meses: a coragem pessoal em defesa da democracia.

“Nas entrevistas que realizei para escrever o livro sobre Teotônio, essa coragem pessoal foi sempre um traço marcante ressaltado por vários entrevistados, até pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso”, diz Carlos Marchi, autor de Senhor República – A vida aventurosa de Teotônio Vilela, um dos mais completos (e necessários, nesse momento) relatos sobre a vida do alagoano. “Fernando Henrique lembrou, por exemplo, da coragem e desassombro de Teotônio andando sem medo entre soldados do exército e manifestantes durante impasse da greve no ABC em 1980 para evitar que o conflito terminasse em carnificina”. (Quem quiser conferir alguns desses momentos pode ver no documentário disponível no Youtube O Evangelho Segundo Teotônio, de Vladimir Carvalho, cenas em que o alagoano solta a voz contra o regime enquanto colegas de partido, como o próprio FHC, estão visivelmente apreensivos).

Trinta e cinco anos depois, no momento que uma parcela dos brasileiros parece inclinada a relativizar algumas das conquistas democráticas na esperança de voltarem a um tempo em que um garoto podia pedalar livre pelas ruas de Maceió, que a coragem (ou “ira santa”, como na letra de Brant) do alagoano de Viçosa nos inspire a não ceder nem um centímetro das liberdades pelas quais ele e milhares de pessoas lutaram até a morte.



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