Dos “rachas” em Maceió à 12ª Copa: alagoano fala dos mais de 50 anos de carreira como narrador esportivo

Publicado em 03 de Jul de 2018

por Rodrigo Cavalcante

Conhecido em todo o país pelos ouvintes da Rádio Globo como “O Bom de Bola”, o locutor alagoano Edson Mauro não tinha nada de “bom de bola” nos rachas na areia dura (e à época limpa) da Praia da Avenida nos anos 1960.

Sem muito talento para futebol, o então aluno do Colégio Guido de Fontgalland preferia ficar sentado narrando o jogo da turma na praia aos sábados à tarde com a voz amplificada por um coco seco. Ao entrar na Rádio Difusora, aos 15 anos, Edson Pereira de Melo virou “Edson Mauro”, nome dado pelo radialista Sabino Romariz, mais tarde seguiu carreira na Rádio Gazeta até que, em 1971, foi convidado a narrar jogos pela Rádio Globo no Rio ao lado de ídolos como Waldir Amaral (que lhe batizou como “O Bom de Bola”).

Entre a narração dos jogos da Copa (como a partida Bégica 3 X 2 Japão nesta segunda), Edson Mauro falou a AGENDA A sobre o início da carreira em Maceió, sobre o jogo mais emocionante que narrou, sobre a seleção brasileira que mais lhe deu confiança durante uma Copa do Mundo e até de como ajudou Djavan no início da carreira. 

AGENDA A: É verdade que Edson Mauro, “O Bom de Bola”, começou a carreira como locutor por não ser bom de bola?

É, verdade. Não gostava muito de jogar futebol, não tinha aptidão e nunca joguei tão bem quanto os amigos de turma ou como meu irmão, um canhotinho de primeira. Daí que comecei a narrar os jogos dos amigos nos rachas de sábado à tarde na Praia do Sobral. Usava uma casca de coco seco como uma espécie de microfone para dar aquele tom de locutor de rádio (risos). E os amigos gostavam tanto que, quando um deles fazia o gol, corria em minha direção para comemorar comigo.

Como se deu a passagem da narração nos rachas da Praia do Sobral para o microfone da Rádio Difusora?

Além de narrar os rachas, aos 14 anos, gostava de ler notícias dos jornais em voz alta. Pegava os jornais em casa e ia para o banheiro, que tinha aquele som de estúdio, e começava a ler as notícias. E a partir dali comecei a fazer sucesso lá em casa. Um dia, voltando do Colégio Guido, fui para uma loja do meu irmão (no Mercado da Produção) e ele me apresentou o amigo dele, Hélio Lessa, jornalista da Rádio Difusora. Depois de encher o saco do Hélio Lessa pela terceira vez, ele me colocou para fazer um teste lendo o noticiário, que era minha especialidade em casa. Aí ele chamou o Sabino Romariz, então diretor da Rádio, e me ofereceu um estágio. Foi aí que tudo começou até ser chamado para ser locutor esportivo pelo Márcio Canuto. 

Como foi esse convite e o quem lhe chamou para trabalhar na Rádio Globo no Rio?

O Márcio me viu narrando uma vez com os amigos e me convidou para fazer narração esportiva. Foi quando fui trabalhar na Rádio Gazeta, aos 18 anos, ao lado de grandes profissionais. Quando tinha uns 21 anos, o Márcio mandou um carro para minha casa num dia de folga para informar que eu transmitiria um jogo ao vivo para a Rádio Globo do Rio de Janeiro. Quase não acreditei, mas ele confirmou que o Sérgio Moraes, locutor que ia narrar a partida pela Rádio Globo, perdeu uma conexão de voo em Salvador e não pôde fazer a transmissão no Rei Pelé. Para a minha sorte, já ouvia muito a Rádio Globo e conhecia as vinhetas, o andamento e o ritmo da rádio e dos narradores como Celso Garcia, José Carlos Araújo (hoje na Tupi), Antonio Porto, Sérgio Moraes.  Já no intervalo do jogo, o Dalton Vieira, que era o coordenador equipe da Rádio Globo, ligou para dizer que o Waldir Amaral tinha falado para ele que a narração estava muito boa, que era isso mesmo que ele estava querendo. E quando terminou o Dalton perguntou se eu não queria ir trabalhar na Rádio Globo. Eu tinha 21 anos, achei que ele estava brincando, mas ele me ligou na segunda-feira para confirmar, me mandou uma passagem da Varig e, na quinta-feira, já estava no Rio, ao lado de ídolos como o Waldir Amaral, o João Saldanha.

Quando você saiu de Alagoas, há 47 anos, Maceió tinha menos de 300 mil habitantes. Do que você mais tem saudades da daquela época e o que gosta de fazer hoje quando volta à cidade?

Daquele tempo, tenho saudade das farras com os amigos, das festas de Carnaval na Portuguesa e no Iate Clube, da Praia da Avenida. Hoje, Maceió é uma cidade com uma cara moderna, com ar cosmopolita, que evoluiu muito na prestação de serviços, em áreas como o turismo, gastronomia, enfim, uma cidade que me dá um orgulho danado.

Como azulino, imagino que você esteja orgulhoso também da campanha do CSA na série B. Você acompanha o futebol local e vê alguma chance de uma das equipes subir de série?

Acompanho sempre que posso e acho que o CSA deveria fazer o maior esforço possível para aproveitar essa chance de dar visibilidade nacional ao futebol alagoano. Se o CSA e o CRB subissem de série, imagine a visibilidade que o futebol alagoano, que já teve uma maior visibilidade no passa, ganharia. Além disso, uma equipe que passa a série A e consegue se manter passa a ter um novo pacote de ganhos financeiros, vê a sua torcida se expandir, como já estamos vendo com o interesse das novas gerações pela campanha do CSA. Enfim, acho que vale todo esforço e sacrifício para aproveitar essa chance que há muito tempo o futebol alagoano não tinha.

Contando a partir da Copa de 1974, então, esta é a sua 12ª Copa do Mundo como locutor. Qual a seleção brasileira que mais lhe inspirou confiança no torneio?

Sim, trabalhei em todas essas Copas, algumas delas diretamente do país sede, como na Copa da Argentina, em 1978, e outras, como a atual da Rússia, narrando aqui do Brasil. Acho que a seleção de 2002, do Felipão, com Rivaldo e Ronaldo. Foi a última que, de fato, me inspirou confiança durante o torneio antes da atual comandada pelo Tite.

E qual foi o jogo que você narrou que mais lhe marcou?

Não foi um jogo da Copa do Mundo. O jogo que mais me emocionou foi a última partida do Pelé como jogador profissional do Cosmos, nos Estados Unidos, ao lado do Carlos Alberto Torres, do Franz Beckenbauer. Fui escalado pela Rádio Globo para narrar a partida contra o Santos nos Giants Stadium, em New Jersey. Foi então que tive a chance de narrar o último gol do Pelé que me deixou muito emocionado. Na verdade, na ocasião, fui fazer a narração do jogo e de uma corrida no Grande Prêmio de Montreal (Além do futebol, Edson Mauro narrou mais de 30 grandes prêmios de Fórmula1). Foi um momento e um privilégio, de fato, para a carreira de qualquer locutor.

É verdade que você foi um dos alagoanos que o Djavan foi procurar quando chegou ao Rio de Janeiro para tentar a vida como cantor e compositor?

Sim, já conhecia Djavan em Maceió nos bailes que ele fazia com a banda LSD. Como azulino doente, ele sabia que eu também torcia pelo CSA e cobria o time e vez ou outra convesávamos . No Rio, ele veio me procurar na Rádio em um momento difícil quando já estava pensando até em voltar a Maceió. Quando estávamos conversando na Rádio Globo, por sorte entrou o Adelzon Alves, que apresentava o programa “Amigos da Madrugada”, que ele transmitia da meia-noite às quatro da manhã. (Adelzon foi produtor de Clara Nunes e seu programa foi responsável pela popularização e valorização de nomes como Paulinho da Viola, Marinho da Vila, Ivone Lara -que faleceu em abril deste ano). Apresentei o Djavan ao Adelzon e ele pediu para escutar o Djavan depois do fim do programa, às 4 da manhã. Eu e o Djavan ficamos vendo o programa na rádio e, como combinado, o Adelzon levou Djavan para o estúdio depois e pediu para ele cantar. A cada música que o Djavan cantava, o o Adelzon perguntava: “Essa música é sua?”. E o Djavan, “é minha”. Foi então que ele deu a dica de que a gravadora Som Livre, presidida pelo João Araújo (pai do Cazuza), estava em busca de novos compositores para a trilha sonora de novelas. E graças a esse contato que se transformou, mais tarde, em seu primeirocontrato com a Som Livre que o talento dele passou a ser reconhecido.              

Ouça abaixo narração mais antiga do arquivo da Rádio Globo de uma partida entre São Paulo e Grêmio narrada por Edson Mauro em 1971.


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