SBPC Alagoas: “Quem investiu em Einstein pensando em retorno rápido, perdeu”, diz matemático premiado

Publicado em 27 de Jul de 2018

por Rodrigo Cavalcante

Ele foi o único brasileiro a receber o Grande Prêmio Científico Louis D., principal premiação científica da França, por suas pesquisas em Matemática em parceria com o francês François Labourie.

Marcelo Viana, atual diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), foi um dos grandes nomes da pesquisa brasileira presentes na 70ª reunião da SBPC, realizada na Ufal, que encerra neste sábado com uma programação voltada para a família.

Em entrevista a AGENDA A, no estande da Fapeal, Marcelo falou do impacto no país (e em Alagoas) do programa da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, da tradição alagoana de grandes matemáticos e da importância do investimento público na pesquisa básica que serve de base para uma série de inovações a longo prazo. “Quem investisse em Einstein pensando em retorno financeiro a curto prazo, perderia dinheiro”, diz Viana.

AGENDA A: Alagoas tem uma longa tradição na matemática com nomes como Manfredo Perdigão, Hilário Alencar, Edmilson Pontes, Elon Lages Lima (falecido em maio de 2017, que dirigiu por três vezes o Impa), além de novos nomes como Fernando Codá. Você inclusive já escreveu sobre alguns resultados, em Alagoas, da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Iniciativas como essa são suficientes para manter essa tradição?     

Programas como a OBMEP têm um papel essencial na descoberta de jovens talentos na rede pública para que eles ganhem visibilidade e tenham mais chances de seguir na área. Esse trabalho, como também o da formação de professores realizado aqui pela Ufal, por professores como Krerley Oliveira, são essenciais na melhora do ensino. Mas é claro que programas como esse vão até certo ponto. Precisamos fazer muito mais para que a pesquisa de ponta, que fez o Brasil entrar para o Grupo 5 na elite dos países na área, conte com uma base mais consistente em todo o sistema educacional.

Em ano eleitoral, o tema Educação voltará à pauta dos candidatos. Com a sua experiência, qual o melhor caminho para o Brasil deixar a retórica na área?

Os políticos só vão transformar a Educação em tema central, e não retórico, quando a sociedade brasileira valorizar, de fato, a Educação, como o tema central da vida de todos. Quando vejo as pessoas citando a revolução educacional em países como a Coréia do Sul, por exemplo, percebo que muitos esquecem que, mesmo durante a Guerra da Coréia nos anos 1950, a Educação era levada tão a sério pela sociedade que as aulas não eram interrompidas sequer em meio a conflitos sangrentos. Quando a Educação é encarada dessa forma pela sociedade, os políticos têm que dar respostas para fazer o que precisa de ser feito.

E o que precisa ser feito no primeiro passo?

Não há muito mistério. Basta observar experiências bem sucedidas em outros países, não apenas na Coréia do Sul, onde a Educação é um tema central na sociedade, como iniciativas em países da América Latina como Chile, Uruguai. A pista principal é a valorização do professor. Não apenas a valorização salarial, que é essencial, mas também a valorização e investimento na formação e no reconhecimento daqueles que fazem a diferença. Apesar de não conhecer detalhes da realidade educacional em Alagoas, tive acesso a história de professores da rede pública municipal que fizeram suas cidades alcançarem bons resultados na OBMEP porque receberam algum apoio. Esse incentivo pode ser, por exemplo, liberá-lo de uma grade horária burocrática para que ele possa desenvolver programas de treinamento dos alunos na área. Enfim, precisamos criar mecanismos de incentivos e valorização daqueles que fazem a diferença. E não defender, em nome da isonomia, um sistema que termina nivelando de todos por baixo.

Em meio aos cortes nos programas de Ciência e Tecnologia no país, volta-se a discutir, no Brasil, a falta investimentos privados na área. Por que ainda o setor privado investe pouco em Ciência e Tecnologia no Brasil?

Esse investimento está aumentando, mas ainda é muito incipiente. Não há uma tradição cultural no setor privado brasileiro de assumir riscos que não impactem em lucro no curto prazo. Apesar disso estar mudando, precisamos ter consciência também de que todo processo de inovação tecnológica, foco de investimento das empresas na área, tem como base a pesquisa básica. E a pesquisa básica em matemática, física teórica, química é função do investimento público, já que os avanços na base não são rentáveis no curto prazo. As pesquisas de Faraday (físico e químico inglês Michael Faraday, 1791-1867, que estudou a eletricidade) não se transformaram imediatamente em tecnologia aplicada. Quem investisse em Einstein pensando em retorno, perderia dinheiro. E, sem essa pesquisa básica, múltiplas inovações tecnológicas tecnológicas não existiriam. Enfim, não há uma dualidade de investimentos públicos e privados. Precisamos de mais investimentos públicos e privados para que o Brasil mude de patamar na área.



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