AGENDA A IDEIAS: 'O que os eleitores agressivos de Dilma e Aécio têm em comum?'

Publicado em 19 de Outubro de 2014

*Por Rodrigo Cavalcante

Bem que a tecla SAP do controle remoto - abreviação do inglês Second Audio Program (Segundo Áudio do Programa), que permite que você ouça o áudio original de um programa dublado – poderia ser usada para desmascarar falsos discursos nesta eleição.

Só assim, talvez, poderíamos captar os verdadeiros preconceitos, frustrações, interesses pessoais ou corporativistas disfarçados de disputas ideológicas agressivas poucos dias do segundo turno.

Discursos, diga-se de passagem, de gente bem informada, com curso superior, pós-graduação, mas sem vergonha de defender teses em redes sociais que poderiam ser desmontadas por qualquer criança.

Exagero?

Comecemos, então, pelo recorrente tema da corrupção.

Para uma boa parcela de militantes do PT, os casos de corrupção na Petrobras, entre vários outros que se arrastam, aparecem sempre como armações da oposição ou da mídia golpista. Ainda que a mídia tenha lado, nem os Meus Queridos Pôneis seriam ingênuos a ponto de ignorar os esquemas de pagamentos de propina, compra de votos e aparelhamento de vários órgãos do Estado nos últimos 12 anos.

Já para boa parte dos eleitores de Aécio, os casos de corrupção em Minas (o tal mensalão mineiro, envolvendo o governador tucano Eduardo Azeredo) não passam de um problema pontual, menor. Tampouco parece haver qualquer registro histórico das negociatas para a aprovação do projeto da reeleição de FHC, que mudou as regras do jogo para beneficiar um dos times no meio da partida.

E na Economia?

Qual petista reconhece que foi o tucano Henrique Meirelles, no comando do Banco Central, um dos maiores responsáveis pelo colchão de reservas internacionais (hoje acima de US$ 370 bilhões) que impediu que o Brasil fosse a nocaute a qualquer abalo no mercado de um país vizinho? Alguém recorda dos ataques que o PT fez a esse tipo de política - acusada por militantes de ser um desvio de recursos da Saúde e da Educação para alimentar o mercado financeiro internacional?

Por que, por outro lado, uma grande parcela de tucanos insiste em ignorar o impacto positivo que as políticas de reajuste do salário mínimo trouxeram para o mercado interno – enquanto em governos passados, qualquer reajuste no mínimo era encarado como um tabu macroeconômico?

Enfim, Aécio, Dilma, Lula ou FHC são diferentes, é claro, mas sabem, no íntimo, que diferenças ideológicas não encobrem fatos. Em período eleitoral, contudo, parece que vale mais seguir o comando dos marqueteiros e jogar para as respectivas torcidas.

Como as torcidas são mais movidas por paixão do que pela razão, o debate entre diferentes projetos do Brasil é engolido por esse bate-boca de botequim quase sempre inflamado por pessoas com expectativas de ganhos diretos via a eleição de um dos candidatos.

De um lado, há pretensos ideólogos de esquerda da classe média que pregam o fortalecimento do Estado – quando na verdade, se acionarmos a tecla SAP, estão mais preocupados com o fortalecimento de seus vencimentos, estabilidade e aposentadoria na carreira pública.

Do outro, há pretensos liberais que falam em meritocracia, mas reclamam ostensivamente de reajustes de R$ 50 no salário de quem lava e passa as cuecas dos filhos – que, em geral, só aprendem o valor do trabalho manual em viagens de intercâmbio no exterior.

De certa forma, esse acirramento no tom da disputa, principalmente na classe média, revela como o Brasil, após mais de 60 anos, ainda parece preso pelo embate entre o corporativismo getulista e pelo conservadorismo lacerdista. Embate que terminou provocando o suicídio de Getúlio em 1954 e, dez anos mais tarde, o Golpe Militar - que não poupou nem o próprio Lacerda, cassado pelo movimento que apoiou.  

Uma lição amarga para aqueles que acreditam que, quanto mais virulento for o embate, melhor.

Enquanto ânimos se exaltam entre tucanos e petistas e amizades são desfeitas em uma das campanhas mais acirradas dos últimos anos, os soldados de ambos os lados podem ter, ao menos, uma certeza em comum: ganhe quem ganhar, o PMDB deve continuar governando em parceria – de preferência, sem fazer muito barulho – boa parte do Brasil.

c*Rodrigo Cavalcante é editor do AGENDA A 



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